Resgate da Tradição do Marabaixo: Uma Jornada de Incompreensões e Revolta

A história do Marabaixo é como um quebra-cabeça complexo.

Resgate da Tradição do Marabaixo: Uma Jornada de Incompreensões e Revolta
Arquivo Pessoal

Como professor licenciado em história e pesquisador da cultura negra, tenho o privilégio de mergulhar nas riquezas históricas do Amapá, uma região marcada por incompreensões e mistérios. Entre os aspectos mais intrigantes está a origem e trajetória do Marabaixo, uma expressão cultural profundamente enraizada na identidade do povo amapaense.

A história do Marabaixo é como um quebra-cabeça complexo, onde as peças se encaixam com dificuldade, mas revelam uma imagem fascinante do passado. Segundo relatos de respeitadas moradoras, como dona Marcelina, dona Zefa e dona Luci, o Marabaixo tinha seu espaço diante da igreja de São José de Macapá. Era um momento sagrado, onde o padre benzida e abençoava tanto o folguedo quanto as pessoas presentes. Havia uma coroa, mas não um rei. Os praticantes do Marabaixo tinham sua própria coroa de prata, que era deixada na igreja de um dia para o outro, sendo recolhida após a bênção do padre.

Entretanto, essa tradição centenária foi abruptamente interrompida pelo padre belga Júlio Maria Lombaerd, que liderou uma campanha contra o folguedo. Em um ato de desrespeito e autoritarismo, quebrou a coroa de prata do Divino e ordenou que os pedaços fossem entregues ao festeiro do Marabaixo. A revolta entre os negros foi imensa, chegando a cogitar a invasão da casa do padre.

O Pe. Julio chegou a Macapá em 27/02/1913 e, por um período, conseguiu suprimir a tradição do Marabaixo. No entanto, assim como essa data, o dia 27 de maio ficou marcado como uma retomada triunfante da tradição. As lágrimas de alegria rolaram ao som do sino da igreja recebendo o cortejo da murta, com diversas comunidades e simpatizantes empenhados em manter viva essa parte importante da cultura local.

Portanto, o resgate da tradição do Marabaixo não apenas celebra a história e identidade do povo amapaense, mas também representa uma resistência cultural contra tentativas de supressão e opressão. É um lembrete poderoso de que as tradições ancestrais são tesouros a serem preservados e valorizados para as gerações futuras.

Referência:
CANTO, José Giltonio de Souza. Cultura negra no Amapá. Macapá: Valcan, 1998. p. 26.

Por João Ataíde o Viajante.