Plantios “experimentais” e grilagem de terras: comunidades tradicionais do Baixo Parnaíba denunciam atuação da Suzano
As denúncias apontam ainda para a existência de um conluio entre a empresa, cartórios e famílias tradicionais proprietárias.
Por Portal O Viajante
A escrita é, antes de tudo, um ato radical de autoconhecimento, resistência e preservação da memória. É por meio dela que histórias silenciadas vêm à tona e denúncias ganham corpo. No Baixo Parnaíba maranhense, comunidades tradicionais começam a reconstruir, com palavras e coragem, um passado recente marcado por perdas territoriais e práticas que hoje levantam sérias suspeitas de grilagem de terras.
Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, a empresa Suzano Papel e Celulose passou a se aproximar de diversas comunidades tradicionais da região, apresentando propostas de “plantios experimentais de eucalipto”. À época, poucos moradores compreendiam o real significado dessas iniciativas. O discurso era técnico, envolto em promessas vagas de desenvolvimento e geração de renda, mas sem explicações claras sobre as consequências territoriais e jurídicas desses experimentos.
Com o passar dos anos, surgiram indícios de que tais plantios teriam servido como porta de entrada para um amplo processo de grilagem de terras, envolvendo municípios como Urbano Santos, Anapurus, Santa Quitéria, São Bernardo, Brejo, Mata Roma, Santana do Maranhão, Belágua e São Benedito do Rio Preto.
Segundo relatos de moradores e lideranças comunitárias, o método se repetia: após obter autorização informal para plantar alguns poucos hectares de eucalipto, representantes da empresa passavam a pressionar os posseiros a venderem suas terras. O valor pago, quando pago, correspondia apenas à área ocupada pelo plantio inicial. No entanto, ao registrar a aquisição em cartório, a Suzano acabava legalizando áreas muito maiores do que aquelas efetivamente negociadas.
As denúncias apontam ainda para a existência de um conluio entre a empresa, cartórios e famílias tradicionais proprietárias, o que teria facilitado a ampliação irregular dessas áreas, transformando posses comunitárias e territórios tradicionais em grandes extensões de terras privatizadas.
Essas práticas do passado ajudam a explicar as negociações fundiárias atuais, como o arrendamento de terras para a empresa AVB – Aço Verde Brasil e a venda de áreas para grandes produtores de soja, especialmente nos municípios de Urbano Santos e Santa Quitéria. Terras que antes pertenciam a comunidades tradicionais hoje alimentam cadeias produtivas do agronegócio e da indústria pesada.
Para os moradores do Baixo Parnaíba, a denúncia não é apenas sobre terra, mas sobre direito, memória e sobrevivência. Ao revisitar essa história, as comunidades exigem investigação, responsabilização e reparação. O que foi apresentado como “experimento” deixou marcas profundas: expulsão silenciosa, perda de território e o enfraquecimento de modos de vida tradicionais.
O Portal O Viajante seguirá acompanhando o caso, dando voz às comunidades afetadas e cobrando transparência das empresas e das instituições públicas envolvidas. Porque escrever, neste contexto, é também um ato de denúncia e de justiça.
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