Ao pensar nas comemorações de Cabralzinho, ainda vejo uma homenagem sem a ousadia necessária para a dimensão histórica de Francisco Xavier da Veiga Cabral. Um personagem tão importante para a história do Amapá merece mais do que uma programação limitada a atos protocolares. É preciso transformar essa memória em pertencimento popular, valorização cultural e desenvolvimento para o município de Amapá.
Imagino, por exemplo, a escolha anual de um personagem para representar Cabralzinho, percorrendo o estado e divulgando a programação das homenagens, levando a história para escolas, comunidades e instituições. Isso ajudaria a aproximar a população da verdadeira importância histórica desse herói que teve papel fundamental na defesa do território amapaense.
Recordo ainda que, conforme aprovado na Câmara Municipal em 2021 ou 2022, salvo engano, a festividade deveria seguir um formato mais amplo, envolvendo todas as entidades representativas do município. Nesse contexto, a própria igreja teria participação ativa com missa em ação de graças, já que o cônego Domingos Maltês representava a igreja no triunvirato histórico. Ou seja, existe uma construção histórica que precisa ser respeitada e fortalecida.
Se faz necessária uma grande mobilização de pertencimento. Esse momento não pode ser visto apenas como uma data comemorativa, mas como um atrativo turístico capaz de aquecer a economia local, gerar renda e fortalecer a identidade cultural do município. Eventos históricos bem organizados movimentam comércio, hotelaria, alimentação, artesanato e turismo cultural.
Ainda escuto comentários lamentando que “era para sermos franceses”. Mas digo justamente o contrário. Nem mesmo os que vivem na Guiana Francesa são franceses em sua plenitude social e cultural. O que precisamos é reconhecer e valorizar nossa própria história. A luta de Cabralzinho representa resistência, identidade e defesa do território brasileiro na Amazônia.
Por isso, é necessário ampliar a participação institucional nas homenagens. Além do Exército, seria importante contar também com a presença do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, de escolas, movimentos culturais, artistas e da sociedade civil organizada. E que, além do tradicional desfile cívico, exista uma homenagem verdadeira e permanente ao homem considerado herói do Amapá, mas que ainda não recebeu o espaço merecido nos livros didáticos brasileiros.
Cabralzinho precisa deixar de ser lembrado apenas em discursos ocasionais e passar a ser adotado definitivamente pelo município e pelo estado como símbolo histórico, cultural e educacional. Afinal, existem muitas histórias inventadas que acabaram se tornando verdades. Já a história de Cabralzinho é verdadeira, embora muitos insistam em desacreditá-la.
O município de Amapá tem a oportunidade de transformar essa celebração em um grande projeto de desenvolvimento turístico, econômico e cultural, fortalecendo sua identidade e projetando sua história para o Brasil e para o mundo.
João Ataide – O Viajante